OPINIÃO

Confissão: 'Eu sou muito louco'

O ano é eleitoral, e as críticas ao STF crescem como clara de ovo

Por Vittorio Medioli

Publicado em 08 de março de 2026 | 16:45

 
 
Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi. Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Fachada do Banco Master na rua Elvira Ferraz em Itaim Bibi. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
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A mídia nos últimos dois dias faz um linchamento de Alexandre de Moraes, que caiu em várias contradições e parece ter perdido a oportunidade de ficar calado. Comenta-se: “Ele se enforcou com a própria corda?”. Em outra época, menos astumultuada, qualquer ministro do STF, castigado por denúncias, desconfianças e constatações indefensáveis – como a contratação do escritório da esposa pelo valor mirabolante de R$ 129 milhões –, já teria pedido a conta.

Seria exatamente esse contrato da esposa que tirou a força de suas alegações em defesa de atos que aparecem como intromissões administrativas no caso Master e, ainda, mensagens trocadas com seu dono, que o consultava nos piores momentos.

“Acabei de dar o discurso para os ministros. Eu sou muito louco”, confessa Vorcaro em mensagem à namorada. “Conseguiu bloquear? Tem novidade?”, dispara Vorcaro para Moraes antes de tentar a fuga para Dubai. Moraes se defende, mas a PF afirma que a mensagem se dirigiu ao número de Moraes, que respondeu com outra de acesso único, em seguida varrida da memória do smartphone, deixando, todavia, o rastro no aparelho do banqueiro.

Fosse um banco qualquer, teria atenuantes, mas o Master hoje não tem alívio – sinônimo das maiores  e mais temerárias fraudes contra a economia nacional, e desnudado nos métodos despudoradamente criminosos, comprando servidores do BC e outras peças-chave que fiscalizavam suas tacadas. 

Razões sobram para o ministro fugir da cena, como fez Barroso. Aliás, com eles, outros dois ministros se encontram no limite da cova. Mas Moraes parece adepto da súmula maquiavélica: “A melhor defesa é o ataque”. Até agora deu certo, ninguém esperava isso também do STF, incorrido em ações que alteram o equilíbrio político nacional.

Sair em silêncio, menos doloroso do que ser desmentido pelos peritos da Polícia Federal, agora submissos a Mendonça, e não mais a Dias Toffoli.

Recentemente, Toffoli tentou, de forma estapafúrdia, excluir do processo Master os peritos da PF. Se não existem argumentos para a manutenção de uma nuvem de incertezas e de tecnicismos jurídicos surreais, é a melhor forma para resistir. Contudo, o ano é eleitoral, e as críticas ao STF crescem como clara de ovo.

A corda vem se apertando no pescoço de Hugo Motta, Davi Alcolumbre e Renan Calheiros, todos dependurados, com dezenas de ações de improbidade no STF. Entre a cruz e a espada, perdem autonomia moral e funcional.

Renan Calheiros se jogou na frente do comboio desgovernado. Ele, com oito ações “repousando” no STF, tem motivos de sobra para estar impedido. Os crimes cometidos pelo Master estão fora da capacidade de defesa de quem quer que seja. O rombo é maior que a capacidade de meros parlamentares. Mais ainda, com gastos milionários de Vorcaro com escritórios de parentes de ministros do STF. Entre as alucinações de Vorcaro, que se autodefine como “muito louco”, tem até uma festa de R$ 200 milhões organizada em Taormina, na Itália. Esse e outros eventos, mais do que promover algum avanço, foram usados como fórmulas para comprometer seus convidados com todo o requinte de um Trimalcione.

Esse famoso personagem (ex-escravo) se tornou rico e ostentador na obra satírica “Satyricon”, atribuída a Petrônio, no século I d.C. Ele é retratado como um anfitrião vulgar e extravagante, que exibe sua riqueza desmedida, mau gosto e ignorância, simbolizando a decadência moral e social de sua época. Trimalcione se exibia gastando sua riqueza mirabolante, fruto de ascensão social. Fez uso desregrado para atrair atenções e negócios e aumentar seu poder. Celebrava sua riqueza com festas como a narrada no “Satyricon” – banquete interminável e caótico, cheio de pratos absurdos, teatrais e discursos pretensiosos, alegrado por dezenas de prostitutas e jovens trazidos do império todo para desfrute dos convidados. 

Trimalcione era, essencialmente, um brega aloprado que adorava mostrar seu status advindo de uma riqueza incalculável e repentina. Utilizava joias excessivas, carruagem estapafúrdia, decoração extravagante e caríssima – não tinha constrangimento de seus excessos. Ele representava o “novo rico”, estupidamente rico da Roma Antiga, cuja fortuna rápida não veio acompanhada de educação ou refinamento, tornando-o uma caricatura do desperdício e da ostentação.

Os próximos dias, em Brasília, serão decisivos. Lula continua a despencar nas latas do desfile da Sapucaí; as festas de Trimalcione sairão do celular, e mais ainda uma overdose de absurdos do Master que respingam nos ministros do STF e nos congressistas e tornaram o cenário uma expectativa de limpeza nunca vista antes, para poder chegar às urnas de outubro deste ano. Vorcaro, além de Trimalcione, está na situação de Epstein, que teve o mesmo fim do Sicário – suicídio numa cela.

A credibilidade do STF vai evaporando, por um vício de origem – a nomeação dos ministros não passa pelo crivo da isenção e formação jurídica, mas pelas notas de submissão aos interesses de quem os nomeou.

O mais grave problema, que se repetirá “ad aeternum”, está nisso. Sem mudanças nas regras, a cena se repetirá, com parentes explorando o prestígio que agora emerge como descredenciamento do Judiciário.