
A China, de tradição milenar em relações exteriores, vem se defendendo e brigando do seu jeito há pelo menos 3.000 anos, entre altos e baixos de supremacia e opulência e outros de miséria e decadência. Sua civilização teve momentos áureos, e dela vieram para o Ocidente inventos que mudaram profundamente as demais civilizações do planeta.
A China esbanjou tamanha superioridade e riqueza, comparáveis em épocas modernas ao que os Estados Unidos alcançaram no século XX, ao ponto de se proteger das invasões erguendo muralhas de um gigantismo despropositado.
Despenderam-se energias, recursos e esforços ao longo de 2.000 anos para resguardar de invasores o sistema mais evoluído da humanidade até aquele momento.
Em 2012 foi anunciado que a Muralha da China mede 8.850 km, apesar de constarem 21.196 km de paredes que foram alguma vez construídas, mesmo que já não existam.
Com largura média de 7 m na base e de 6 m no topo, alçando-se a uma altura média de 7,5 m, a parte superior permitia a passagem de grandes comboios e de exércitos com total segurança e velocidade incomparável. Em relação a hoje, permitia uma velocidade de trem-bala em comparação com um sistema de trem tradicional.
As muralhas começaram a ser construídas no século VII a.C. ao longo das fronteiras do norte do antigo império e receberam os últimos acabamentos pela dinastia Ming (1368-1644).
Recentemente, o presidente Xi Jinping recuperou em concreto alguns trechos destruídos por terremotos. O gesto não gerou embaraço por se tratar de obra “imperial”, e não “popular”. A diferença ideológica não incomodou ninguém. As muralhas representam a defesa da nação e estão enraizadas no DNA chinês, que continua a produzir obras pra lá de faraônicas de infraestrutura. As modernas muralhas são unanimidade, mesmo que requeiram esforço e superação indescritível.
A persistência de mais de 20 séculos despendida nas muralhas se perpetua no esforço atual, “custe o que custar”, próprio da cultura chinesa, voltada a impor a sua antiga supremacia, que nos últimos séculos tinha se tornado uma miséria estarrecedora.
Hoje a China tem 350 milhões de habitantes, que vivem confortados por altas rendas. Entre os 100 maiores ricos do planeta, a China já está chegando a 20. O comunismo chinês tolera o crescimento de magnatas afortunados, esbanjando luxo das Arábias – como apresenta o comunismo russo reformado por Putin. O comunismo, para sobreviver, teve que reinventar os ricos e até os opulentos.
O comunismo deixa 1 bilhão de chineses trabalhando 6x1, 12 horas diárias, com férias de apenas 5 dias anuais, sem descanso, de sol a sol, gerando competitividade a suas indústrias. Isso é aceito. Não há sindicato, justiça trabalhista, e quem é demitido não entra mais em outra empresa. Tudo para a grandeza do projeto nacional de alcançar a supremacia mundial.
Há 20 anos a China produzia 1 milhão de carros aproveitando tecnologia externa. Abriu as portas às melhores em tecnologia, as absorveu e as dominou. Produz hoje 27 milhões para consumo interno, e 3 milhões são exportados, tem outros 20 milhões de capacidade produtiva ociosa.
O mundo consome 100 milhões de automóveis por ano, e a China, sozinha, agora tem capacidade de atender 50% desse mercado.
Na China, as contribuições do empregador se limitam a 16%, grande número de trabalhadores mora nas dependências das empresas.
O custo China em comparação ao custo Brasil é menos da metade. Haja assim competitividade. E, ainda, com subsídio à exportação quase ilimitado.
O escorpião usou o sapo para chegar aonde está, e apenas lhe resta matá-lo com uma picada. Este é o temor. E ainda pouco interessa aos movimentos sociais ser o produto chinês fruto de trabalho escravo, de dumping anticoncorrencial. Uma propaganda massiva nas redes sociais alavanca a tecnologia chinesa, surtindo um efeito comparável ao dos primeiros espelhos que chegavam às aldeias amazônicas.
A China A, “opulenta”, se vale de uma China B e uma C, “escravas”. Estas, em parte, sinalizam intolerância e, nos centros urbanos, preferem viver de biscates e serviços pessoais a se alistar em indústrias. O Ocidente se encontra ameaçado a se desfazer de seus avanços civilizatórios. Deve erguer muralhas para não se ver desindustrializado, desempregado e dependente do escorpião. Donald Trump, por mais indigesto que seja, é uma ponta do iceberg que vem teimando para não derreter.
O Brasil está em silêncio, cúmplice da invasão? Fingindo que está tudo bem?
Os setores produtivos brasileiros, especialmente os industrializados e de transformação, estão se afundando, vítimas do escravismo importado. A campanha eleitoral terá esse assunto entre os mais relevantes de 2026, antecipando os desafios que estão por vir.
Justo promover mudanças no 6x1, mas isso, sem medidas compensatórias, é um favor aos mercados que adotam 12 horas por dia.