OPINIÃO

Novos e poderosos

A ascensão de jovens bilionários e a influência da inteligência artificial expõem os riscos de uma geração acelerada, distante da experiência e das tradições

Por Vittorio Medioli

Publicado em 17 de maio de 2026 | 15:10

 
 
Nunca foi fácil a relação entre gerações. Foto ilustrativa Nunca foi fácil a relação entre gerações. Foto ilustrativa Foto: Pexels/Reprodução
Vittorio Medioli
Colunista de Opinião
Colunista de Opinião
Vittorio Medioli Vittorio Medioli
aspas

Eu nasci e cresci respeitando os adultos e os mais velhos. O que me deixava numa situação de subordinação natural era a forma deles de agir. Admirava a segurança, os acertos, a confiabilidade e, ainda, a forma tranquila de explicar as razões de suas escolhas e conselhos. Estas se inspiravam nas experiências próprias e, mais ainda, naquelas dos pais deles.

Havia uma sequência de tradições que deixavam mais acertadas suas atitudes. Precisava, antes de tomar uma decisão, me aconselhar, enxergar o momento através dos olhos mais experientes. Respeitava a experiência deles, a sabedoria que nas dúvidas clareava as minhas decisões. 

Evitei muitos desastres, fortaleci minha trajetória e hoje, “olhando pela popa”, reconheço quanto foram bons certos conselhos. Um deles era fundamental: não tenha pressa, tudo tem seu tempo. Uma fruta tem que ser colhida na sua estação: antes, é amarga; depois, apodrece.

Nunca foi fácil a relação entre gerações. Tivemos filhos que mataram o pai para tomar o lugar dele, entretanto, se analisarmos o fim desses patricidas, descobriremos o insucesso e até mesmo um fim trágico. Hoje, nas gerações contemporâneas, especialmente na última, crescida nas nuvens do mundo virtual e acelerada pela IA num ritmo até então desconhecido pela humanidade, a distância entre os costumes dos pais e os dos filhos se ampliou. Por vezes, as linguagens de uns são indecifráveis aos outros.

A sensação dos jovens é ter pais obsoletos, ultrapassados, incapazes frente a novas oportunidades. Isso é um problema. Contudo, a existência da raça humana e suas características de desenvolvimento não prescindem da experiência, do freio aos instintos juvenis que aparecem com o decorrer da idade. Temos jovens inteligentes, mas inexperientes. Aparentemente superiores, porém sem visão dos “princípios” até morais que regem a vida.

Hoje, a IA gerou a desconfiança. Os olhos e os ouvidos podem ser enganados, e por eles cerca de 90% das sensações transmitidas ao cérebro são falseadas. Nesta semana verificamos que dois “moleques” funkeiros teriam lavado cerca de R$ 260 bilhões. Não sei se é verdade, mas, se fossem apenas R$ 260 milhões, já seria um absurdo.

Carros de luxo, joias, mansões e tudo que é ostentação entram no repertório “obrigatório” desses fenômenos. Poder sem experiência e sem princípios morais gera o ambiente bíblico de Sodoma e Gomorra.

Os negócios passam pelos vícios, os vícios determinam negócios. A luxúria, a gula, o desperdício, a violência e todo o repertório de crimes contemplados no Código Penal são perpetrados. A conexão degenerativa com as organizações criminosas – nota-se olhando com atenção – está presente nesses fenômenos. Retroalimentam-se e se fortalecem, se aceleram no crescimento e na degeneração.

A geração Z abriga “jovens” bilionários entre os mais ricos.

📲 Acesse o canal de O TEMPO no WhatsApp
Em 2024, Eduardo Saverin, com apenas 43 anos, chegou a ser apontado como o brasileiro mais rico da história, com uma fortuna estimada em US$ 155,9 bilhões, cerca de R$ 800 bilhões, após forte valorização das ações da Meta – controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp. 

Saverin é um exemplo que permite aos jovens sonhar com o milagre. Ele, antes de completar 30 anos, já era multibilionário e deverá chegar a ser o primeiro trilionário verde-amarelo, com ganhos ligados apenas ao mundo virtual. 

Os infantobilionários se multiplicam e aceleram os sonhos de uma geração que de conexão com as tradições e a experiência pouco ou nada tem. Seguir o caminho dos pais se tornou raro, até porque explodiram novas ocupações, novas oportunidades, que os pais não tiveram.

Contudo, a experiência, a capacidade de extrair do mundo real resultados, se liga a regras universais. Uma elite jovem e poderosa, sem sabedoria e, pior, sem saber que ainda não aprendeu o que apenas o decorrer dos anos e as experiências concedem, se torna um risco, tanto para ela quanto para a humanidade.

Esses jovens precisam ostentar, precisam “ter”, mais do que “ser”.  A sabedoria não se compra, é um modo de viver que deriva da experiência, das quedas e dos esforços para continuar.  O intelecto sem “consciência”, sem a sensação das consequências, se torna um risco fatal. 

Alertar pouco serve, precisaremos aguardar que catástrofes, acidentes e dores ensinem o que é necessário.