A China adotou o ultraliberalismo que possibilitou o trabalho escravo de multidões
Foto: Greg Baker/Associated Press
A China adotou o ultraliberalismo que possibilitou o trabalho escravo de multidões
Foto: Greg Baker/Associated Press
“Ideologia” é um termo relativamente recente, abstrato e residual; não existia até final do século XVIII. É uma sofisticação dialética mais que filosófica – surgiu para “justificar” interesses e planos de dominação ou decisões decorrentes de atitudes consumadas.
Com o italiano Vilfredo Pareto e o alemão Karl Mannheim, no início do século XX, a noção de ideologia evoluiu no campo da análise social. Segundo Pareto, a ideologia explora o poder dos instintos irracionais, que levam os homens a agir usando explicações aparentemente lógicas para validar suas ações egoístas.
Mannheim, por sua vez, distingue entre ideologia particular, como uma mentira deliberada para ocultar interesses específicos, e ideologia total, aquele tipo de ideologia que não surge de um esforço para enganar, mas se revela ao sujeito como consequência de sua posição social.
São visões aparentemente complexas da forma de justificar interesses de cima para baixo ou de baixo para cima, esquecendo situações de fato e dominantes em agrupamentos sociais. Ideologias se fundaram por interesses e deram poder aos demagogos, que entenderam seus mecanismos como chave de entrada nas simpatias mórbidas dos oprimidos.
O liberalismo e o socialismo por si sós fracassaram, alcançando seu ápice, amargaram derrotas e quedas. A diferença é que o liberalismo atingiu o enriquecimento de alguns, que se estendeu, em seguida, à nação. Mas as ideologias contrapostas se equilibram, como doce e salgado. Precisam de uma dose de oposto para fazer sucesso.
A ideologia total, segundo Mannheim, é essencialmente uma “visão de mundo” com a qual certos grupos, mesmo inconscientemente, ocultam a verdadeira precariedade da sociedade. Dessa forma, a ideologia desempenha uma função “conservadora”, escondendo as possibilidades que se têm por meio de mudanças para melhorar a situação dos oprimidos. O ocultamento dos males sociais não provoca equilíbrio na sustentabilidade de uma nação.
Aos oprimidos deve ser dada uma razão para crer que as condutas de opressão serão vencidas.
A vitória, no século XIX, das tendências progressistas do Norte sobre as conservadoras do Sul tem deixado nos Estados Unidos um exemplo de desenvolvimento e de progresso sem precedentes.
A China, para alcançá-lo, depois de décadas de marxismo radical, sem liberdades individuais – submissas ao interesse do Estado –, adotou o ultraliberalismo nos setores econômicos. Possibilitou o trabalho escravo de multidões e, por outro lado, deu suporte para investimentos enormes em tecnologia. Carrega agora uma dívida social explosiva. Enfrentará outras revoluções, pois o anseio de liberdade se encontra amordaçado e represado como numa panela de pressão.
O Brasil, distante das áreas de sucesso social e econômico do planeta, vive mergulhado entre ideologias ultrapassadas. Uma alimentando a outra. Quanto mais a esquerda cresce, mais arrasta a direita, como procura orgânica de equilíbrio. Assim se comporta o universo, e a sociedade vai atrás.
Na América do Norte, as ideologias têm se tornado neutras, ou seja, como um sistema de ideias, crenças e valores capaz de orientar a conduta de grupos e indivíduos, sem perder de vistas os valores fundamentais de liberdade e progresso.
A partir da década de 1960 surgiram discussões sobre a “morte”, o “fim” ou o “declínio” da ideologia, partindo exatamente dos Estados Unidos (D. Bell, “The End of Ideology. On the Exhaustion of Political Ideas in the Fifties”, 1960), e mais tarde na Europa (R. Dahrendorf, “Arbeiten zur Theorie und Methode der Soziologie”, 1967, em seguida G.M. Cottier, “La Mort des Idéologies et l’Espérance”, 1970, e o notável livro de L. Colletti, “Tramonto dell’Ideologia”, 1980).
Com essas ideias circulando no hemisfério norte, laboratório de avanços sociais, acabou se dissolvendo a radicalização e se passou por um movimento de homogeneização das ideias. Os partidos radicais perderam relevância, os métodos e princípios substituíram as ideologias. Ideais de honestidade, transparência, responsabilidade, inclusão, sustentabilidade passaram a substituir as teses ideológicas, quando se materializaram relevantes avanços econômicos das famílias.
O Brasil, em sua solidão, garantida por uma distância oceânica, confirma estar distante 50 anos da compreensão dos avanços sociais que ocorrem no planeta.
Ideologia socialista surge e se alimenta da miséria; quando erradicada, decreta a morte da ideologia extremista. Os avanços econômicos anulam a necessidade de extremismos e rebeldias, passam a dar espaço à distribuição dos bens.
Assistimos aos espasmos e delírios que antecedem o colapso de um sistema ultrapassado. Um país tem que criar uma classe política voltada à defesa e à prática de valores transformadores por meio da educação, austeridade nos gastos públicos, honestidade, competência na escolha dos administradores. As ideologias e os elementos tóxicos têm seus dias contados. Assim seja!