OPINIÃO

Das nuvens ao pó

Nas alturas do poder, qualquer pedra que se desprende da encosta pode gerar uma avalanche, uma hecatombe de fiéis seguidores

Por Vittorio Medioli


Publicado em 07 de junho de 2026 | 14:21
 
 
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Fiquem atentos àqueles indivíduos momentaneamente afortunados que ocupam os lugares mais poderosos do Estado, considerando-os eternos.

Os caprichos do destino são infinitos, espreitam os voos dos Píndaros. O calor do sol já derreteu inapelavelmente a cera das asas de Ícaro, mesmo quando usava avião a jato.

Nunca fez mal a humildade verdadeira – não a humildade de fachada, que um bom ator pode interpretar e costuma interpretar quando precisa de votos, apoios e favores.

Nas alturas do poder, qualquer pedra que se desprende da encosta pode gerar uma avalanche, uma hecatombe de fiéis seguidores. Cada passo tem que ser firme e cuidadoso em razão não só da meta, mas da forma que se pretende alcançá-la. O custo pode ficar alto demais.

Napoleão Bonaparte, dono da Europa inteira, morreu em Santa Helena, pobre, sozinho e envenenado. Adolf Hitler, outro dominador de meio mundo, se suicidou num bunker, em Berlim. Benito Mussolini, Júlio César, Getúlio Vargas e muitos outros tiveram em comum sucessos fantásticos e fins trágicos.

Erros de avaliação? Crença em que as vitórias pudessem se reproduzir ao infinito? Confiança excessiva? Distanciamento da realidade? Feitiço de poder?

Claro que o epílogo trágico passou por um descuido. Frequentemente por grave descuido, em outros por um banal descuido ou por uma empáfia que se apoderou da razão.

O genial Maurice Leblanc coloca nos lábios de sua criatura literária, Arséne Lupin – o mais atraente, o mais habilidoso, o mais elegante, o mais astuto de todos os ladrões já concebidos –, a confissão no auge do sucesso: “Em certos instantes, a minha força me faz girar a cabeça. Fico ébrio de poder e autoridade”.

Ficar arrebatado pelo enlevo, de certa forma, é o “risco” maior que segue como sombra as pessoas que alcançaram grande poder em curtas temporadas e não conseguiram consolidá-lo nas circunstâncias menos favoráveis.

Faz lembrar aquele vento que atingiu de surpresa o ocupante da torre de marfim e o fez cair das nuvens para o pó mais indigesto da terra.

Tem gente que considera que ficará eternamente de um lado do balcão.