
A Polícia Federal (PF) aprofundou as investigações da operação Saque Retido, que apura suspeitas de corrupção eleitoral nas eleições municipais de 2024 em Betim. O foco das apurações recai sobre integrantes e lideranças vinculadas ao partido Avante no município.
O caso ganhou repercussão às vésperas do pleito, quando uma assessora ligada ao então candidato a vereador Carlinhos do Niterói foi flagrada realizando saque em espécie no valor de R$ 61 mil em uma agência bancária da cidade. Segundo a PF, ela já havia efetuado outros saques em valores expressivos e pretendia realizar novas retiradas até a data da eleição. Informações obtidas pela reportagem dão conta de que já teriam ocorrido outros saques - um de R$ 50 mil e outro de R$ 80 mil - antes da retirada de R$ 60 mil.
A suspeita é de que os recursos seriam destinados ao financiamento de campanha de Carlinhos do Niterói e também de outros candidatos vinculados ao grupo político do Avante em Betim. Ao que consta, o dinheiro em espécie seria destinado à compra de voto, na chamada "boca de urna", conforme já foi constatado em eleições anteriores.
As investigações, contudo, não se limitam ao episódio do saque. Documentos analisados apontam conexões empresariais envolvendo pessoas próximas ao núcleo político investigado.
Entre os registros consta a empresa Motel Sem Censura Ltda., aberta em julho de 2020, sediada na avenida Bandeirantes, no bairro Chácara, registrada como microempresa e com atividade principal de motel.
Também aparece a AMB Gestão em Serviços de Saúde Ltda., aberta em dezembro de 2018, com capital social declarado de R$ 20 mil, enquadrada como sociedade empresária limitada e atuante na área de serviços de saúde.
Segundo informações levantadas, Valmira Alves Barbosa e Camila Sá, funcionárias do vereador Klebinho Rezende (Avante), figuram entre as maiores doadoras da campanha eleitoral ligada ao grupo político investigado.
Outro nome mencionado é Carlinho Silva Prates, apontado por interlocutores como sócio atuante de forma informal no já referido motel.
Já Felipe Augusto Amaral é citado como responsável por procedimentos relacionados à liberação de licitações e adesão de contatos por inexigibilidade — modalidade administrativa utilizada quando há inviabilidade de competição.
Há ainda relatos de que empresas ligadas ao grupo teriam atuado na locação de veículos e no fornecimento de insumos e medicamentos durante o período da Covid-19, contexto que, em diferentes estados e municípios, vem sendo objeto de investigações devido ao volume de recursos movimentados emergencialmente.
De acordo com as apurações, o núcleo político em análise teria como liderança o vereador Klebinho Rezende, eleito pelo Avante em Betim e apontado como mandatário do grupo, além da coordenação política, atribuída ao ex-secretário municipal de Saúde Guilherme Carvalho.
Carvalho já figura como indiciado em outra investigação da Polícia Federal relacionada à suposta corrupção na aplicação de verbas destinadas ao enfrentamento da Covid-19.
A PF também apura a possível conexão entre a movimentação financeira suspeita e a estrutura de campanha coordenada pelo grupo político no município, incluindo candidatos como Klebinho Rezende e Carlinhos do Niterói.
As diligências realizadas — que incluíram seis mandados de busca e apreensão — têm como objetivo coletar documentos, mídias digitais e outros elementos que possam comprovar eventual prática de caixa dois, abuso de poder econômico ou outros crimes eleitorais.
Até o momento, não houve divulgação oficial sobre eventuais denúncias formais ou pedidos de indiciamento especificamente no âmbito da Operação Saque Retido. As investigações seguem sob sigilo, e os citados ainda não se manifestaram publicamente sobre o caso.
Caso sejam confirmadas as irregularidades, o episódio poderá ter desdobramentos tanto na esfera criminal quanto na Justiça Eleitoral, com impacto direto no cenário político de Betim.
À reportagem, Klebinho afirmou não saber de onde partiu a informação que associa seu nome às supostas articulações investigadas pela Polícia Federal. “Não tenho nada a dizer porque não sei nem de onde tiraram isso. Só porque um candidato a vereador teria sido acusado de corrupção eleitoral não significa que ele seja do meu partido”, declarou Klebinho. O vereador também ressaltou que nunca foi alvo de nenhum tipo de operação da Polícia Federal, nem responde ou respondeu a qualquer processo relacionado à corrupção. “Nunca teve nada na minha casa, nada no meu gabinete. Nunca respondi nada de processo policial. Não tenho nada a ver com isso, nada mesmo”, afirmou.
Guilherme Carvalho, ex-secretário de Saúde de Betim, afirmou que nunca foi filiado ao Avante e negou ter coordenado o partido em Betim. Segundo ele, embora tenha contribuído em “algumas construções políticas” da legenda, jamais teve filiação ou função formal na sigla. “Nunca fui filiado ao partido. Coordenar é uma palavra que envolve muita coisa. Ajudei em algumas construções políticas, mas nunca fui filiado”, declarou. Ele também ressaltou que não foi alvo da operação mencionada da Polícia Federal e que não foi citado oficialmente em qualquer investigação relacionada ao caso. “Não fui citado, não tive envolvimento em nada. Não fui alvo dessa operação. Estou sem saber por que estão envolvendo o meu nome”, questionou.
A reportagem tentou falar com Carlinhos do Niterói por telefone, mas ele não atendeu as ligações nem respondeu às mensagens do WhatsApp.
O presidente nacional do Avante, Luís Tibé, também foi contatado para comentar o assunto, mas não respondeu até o fechamento desta matéria.
O jornal O Tempo Betim está aberto para a manifestação das outras partes citadas.