Fundador do Grupo SADA, o empresário Vittorio Medioli falou sobre as origens e a consolidação do conglomerado
Foto: Grupo SADA/Divulgação
Fundador do Grupo SADA, o empresário Vittorio Medioli falou sobre as origens e a consolidação do conglomerado
Foto: Grupo SADA/Divulgação
Em entrevista que celebra meio século do Grupo SADA, o empresário Vittorio Medioli relembra sua origem italiana no pós-guerra, os desafios da chegada ao Brasil, a revolução logística que liderou e as lições de uma vida dedicada a construir um legado duradouro no país.
Nestes 50 anos de fundação do Grupo SADA, Vittorio abriu o livro de sua vida. Nascido em 1951 na região de Emília-Romanha, na Itália, e radicado no Brasil desde os 25 anos, ele construiu do zero um dos maiores conglomerados econômicos do país na área de logística e transporte.
Ao longo de seu depoimento, documentado em vídeo pela reportagem de O TEMPO, o fundador e presidente da maior empresa de logística automotiva da América Latina viajou no tempo e foi muito além dos frios números corporativos.
Vittorio relembrou a infância, a origem de sua família, forjada no trabalho braçal nos moinhos na Itália, a efervescência cultural em sua juventude europeia, o desafio de desbravar o mercado automotivo brasileiro na década de 1970, além da superação de um grave problema de saúde e suas fortes convicções sobre sucessão familiar, futuro e o legado que deseja perpetuar.
A seguir, destacamos os principais trechos da trajetória de Vittorio Medioli narrados nas palavras do próprio protagonista do Grupo SADA.
As raízes do espírito empreendedor de Vittorio Medioli remontam à pequena Vicofertile, perto de Parma, na Itália, onde sua família manteve tradições ligadas à terra e à moagem de trigo por séculos. Na região, paróquias locais guardam registros da família desde o início do século XVII, atestando uma estirpe dedicada ao trabalho agrícola e à engenharia rudimentar de aproveitamento hidráulico.
“A minha família tinha sete moinhos ao longo de um canal, moendo trigo. E assim viveram por muitos e muitos anos. Eu sou fruto de uma família assim, uma família de interior, que não tinha palácio, não tinha título de nobreza, era gente que trabalhava”. Esse DNA de resiliência foi forjado nas adversidades vividas na Europa do pós-guerra, moldando o caráter do futuro empresário. “Escutava as histórias que meu pai contava, e era muita lembrança da guerra, porque era recente. Então, a minha infância foi essa e serviu, porque você aprende mais no sofrimento, na dor, do que na alegria. A dor te estimula a avançar; na alegria você fica parado”.
A guinada definitiva rumo à América do Sul ocorreu em maio de 1976, motivada pelo cenário europeu e pela oportunidade histórica de acompanhar a instalação da Fiat em Minas Gerais. Ao desembarcar no Brasil, aos 25 anos, Vittorio encontrou um país em plena expansão, carente de infraestrutura e aberto a grandes iniciativas. A fundação do Grupo SADA, em 4 de agosto de 1976, praticamente coroou a inauguração oficial da fábrica automotiva.
“Cheguei aqui em definitivo no final de maio de 1976. O Brasil precisava de gente. O antigo Anel Rodoviário para Betim era deserto. Eram pastos, não tinha praticamente nada. A (avenida) Amazonas parava na Gameleira. Da Gameleira para a frente, não tinha nada. A SADA foi fundada em 4 de agosto de 1976. A Fiat foi inaugurada no dia 9 de julho de 1976. Cheguei assustado, porque era muita diferença de onde eu vinha para cá, mas era desafiador. Os desafios chegaram um por um. Você não vai engolir todos. Lembro que, quando chegava para trabalhar, pegava um papel de rascunho e listava. Que problemas eu tenho? Vinte problemas. Fixava aquilo e dizia: ‘Olha, vamos tentar resolver hoje’. No final do dia, tinha riscado a metade ou um pouco mais”.
Nascido para atender à nascente indústria automobilística, o Grupo SADA expandiu-se com vigor ao longo de cinco décadas, integrando hoje mais de 30 empresas e se consolidando entre os cem maiores conglomerados econômicos do país. Para Vittorio Medioli, a verdadeira dimensão de um império empresarial reside na sua utilidade social e no impacto direto sobre a vida das pessoas.
“Nós não somos apenas um grupo que movimenta dinheiro. Movimentamos o destino de muitas pessoas. Isso me enche de grande satisfação, porque a nossa presença não é em setores especulativos, mas setores primários, setores logísticos, que impulsionam a economia e viabilizam soluções. A minha função sempre foi ampliar o bolo, e não tirar apenas a maior fatia”.
Para superar os gargalos logísticos e as enormes distâncias do território brasileiro, o empresário Vittorio Medioli precisou inovar na prática, desenvolvendo soluções mecânicas revolucionárias diretamente na oficina da empresa. Quando a Fiat iniciou a exportação do modelo Fiat 147, o sistema tradicional de frete mostrou-se inviável. A resposta nasceu da engenharia aplicada por sua equipe.
“A Fiat se transformou em exportadora do Fiat 147. Só que nós pegamos com um frete que era cerca de 20% mais baixo, mas eu fiz uma carreta que carregava 20% a mais. Portanto, essa cegonha que está hoje aí com 11, 12 carros, fomos nós, na nossa oficina, que fizemos. Consegui dar economia ao meu cliente, diminuir o número de viagens e faturar mais por viagem. Isso me gerou um círculo virtuoso”. O ritmo era implacável, e Vittorio assumia a boleia dos caminhões para ditar o padrão de excelência. “Eu instruía carregador de cegonha, subia as rampas, pegava o carro (cegonha). Eu não conseguia ficar parado e fazer as coisas erradas”.
Pai, esposo e avô, Vittorio Medioli aborda a sucessão do Grupo SADA e o futuro familiar sem rigores corporativos excessivos, apostando na solidez de princípios éticos perenes como a verdadeira herança. Para ele, o exemplo diário e a transmissão de valores são os guias indispensáveis para as novas gerações.
“Estou casado há 40 anos, tenho duas filhas e cinco netos. Convivo com eles e tentei dar o melhor possível que eu tinha. Eu formei as minhas filhas (Daniela e Marina) mostrando o que eu faço. Não é que elas têm que repetir aquilo que eu faço, mas pelo menos os princípios, que são as coordenadas, por exemplo, da honestidade, do respeito, de fazer o bem, de serem úteis”.
Sustentado pela leitura voraz e marcado pela superação de severos desafios de saúde, incluindo uma grave doença hepática que o levou à fila de transplante, Vittorio Medioli construiu, ao longo de sua vida, uma filosofia de resiliência inabalável. O flerte com a morte reconfigurou seu propósito de vida.
“Fiz transplante de fígado, sofri, já me despedi com 60 anos porque não acreditava, quando entrei no Albert Einstein, sair de lá vivo. Renasci. Era como ter voltado em outro planeta”.
Nos negócios e na vida pessoal, os tropeços e equívocos do fundador do Grupo SADA parecem nunca ter sido motivos para recuo, mas sim lições vitais extraídas também das páginas dos livros.
“Eu devo ter lido mais de 150 biografias. Quando você estuda a vida de uma pessoa, este é real, não é um romance, não é uma ficção. Eu sempre aconselho aos jovens: se você ler cem biografias e mais uns 300 livros, você está feito, não precisa estudar, não precisa de nada, você resolve tudo na vida. Eu sempre tive a humildade de reconhecer: eu errei. Graças a Deus! Porque o erro é uma vacina. Você não vai repeti-lo quando você o absorveu”.
A trajetória de Vittorio Medioli na vida pública é marcada por forte atuação institucional e entregas de grande impacto. O empresário exerceu mandatos expressivos no Legislativo, atuando como deputado federal em Brasília, onde participou ativamente de debates estratégicos para o desenvolvimento nacional.
Anos mais tarde, levou essa bagagem para o Poder Executivo ao ser eleito e reeleito prefeito de Betim, liderando processos profundos de reestruturação fiscal, saneamento de contas públicas e modernização dos serviços prestados à população. Para ele, o exercício da política exige competência técnica e desprendimento pessoal.
“A política pode ser desastrosa, como pode ser extremamente construtiva. Quem faz a diferença são as energias que estão se movimentando lá dentro. O serviço público na política é assim, você é um servidor público, você assume um cargo público para servir, não vai lá para se servir”.
Ao celebrar o cinquentenário do Grupo SADA, Vittorio Medioli projeta o futuro com a serenidade de quem edificou bases sólidas, focando agora as ações de descarbonização, na chamada “economia verde” e na produção de biocombustíveis.
“Estamos preparando também as bases para que os próximos 50 anos, mesmo que eu não esteja aí, sejam igualmente produtivos. As nossas iniciativas, sobretudo nos últimos 20 anos, se destinam muito a essa grande tarefa que nós temos de deixar um mundo sustentável”.
Enquanto o conglomerado do Grupo SADA expande esses investimentos estratégicos, o fundador encontra sua plenitude na simplicidade de uma consciência tranquila sobre seus feitos até então.
“Não tenho arrependimento. Fiz e repetiria em cheio aquilo que eu fiz. Fiz o bem, estou tranquilo. E sou feliz. A minha felicidade é cumprir aquilo que eu posso fazer no lugar onde eu estou. Minha vida passou. Estou cheio de cicatrizes, tanto no corpo como na alma, mas isso me fortaleceu, me deu um sentimento, não digo de dever cumprido, mas, em primeiro lugar, acho que fui muito pouco prejudicial ao planeta e, sempre que pude, colaborei com ele, colaborei com a humanidade, e se não fiz mais é porque não consegui”.