FRAUDES BANCÁRIAS

Vítimas de golpe amargam prejuízos além das cifras

Com histórias entrelaçadas pelos crimes cometidos contra eles, clientes que foram alvo de quadrilha contam como a ação dos estelionatários impactou a vida deles

Por Iêva Tatiana

Publicado em 29 de agosto de 2025 | 09:05

 
 
Pollyanna Breder, Felipe Alvisi e Ana Flávia Dutra sofreram golpe milionário e viram seus sonhos serem adiados Pollyanna Breder, Felipe Alvisi e Ana Flávia Dutra sofreram golpe milionário e viram seus sonhos serem adiados Foto: Brandon Santos, Arquivo Pessoal e Carolina Miranda

Além de prejuízos financeiros milionários, o golpe atribuído a um gerente de uma agência do Santander da região Central da cidade causou dor, frustração e revolta. Oito meses após a constatação das fraudes bancárias, as vítimas – que já passam de 50 – estão unindo forças para clamar por justiça e tentar, de alguma forma, reaver os sonhos que foram furtados pelo suspeito em dezembro último.

Com a voz embargada, a representante comercial Pollyanna Breder relata que ela e o marido perderam juntos R$ 304 mil. Ela pretendia trocar o carro que usava para trabalhar, e ele ia comprar um caminhão novo para conseguir entrar em um negócio mais rentável, já que a família precisava de mais recursos para seguir com a construção de uma casa. O casal vendeu os veículos e investiu o dinheiro sob a orientação do gerente. Entretanto, o homem, apontado como um dos integrantes de uma organização criminosa com atuação em várias regiões do estado, sumiu. “No início, ele mandava relatórios, mas, depois, parou de responder nossas mensagens. Procuramos a agência e fomos informados de que ele estava afastado devido a problemas de saúde. Chegamos a ficar preocupados com ele, até que, em outra ocasião, nos disseram que não tinha investimento nenhum. Foi nessa hora que nosso mundo desabou”, relembra Pollyanna.

Endividados, impossibilitados de terminar as obras do novo imóvel e sem meios para trabalhar, a representante comercial e o companheiro passaram a depender da doação de cestas básicas. “Como não conseguíamos mais pagar o aluguel, tivemos que nos mudar às pressas para a casa em construção, que estava sem pia, sem portas, sem quase nada. Meu marido entrou em depressão. Eu me mantive firme por nós dois até ele começar a melhorar e aí passei a ter várias crises de fibromialgia [doença que causa dor em todo o corpo]. Em uma delas, perdi o bebê que estava esperando”, desabafa Pollyanna.

Desolados

No caso do técnico em refrigeração Felipe Alvisi, o prejuízo financeiro causado pelo golpe cometido na agência do Santander foi de R$ 135,4 mil, uma soma de economias dele, da esposa e da mãe. Já o dano emocional provocado pelo gerente ainda é incalculável para a família. “O sonho de todo mundo é ter uma casa própria, e eu ia utilizar o dinheiro justamente para isso. Apesar de ser casado, ainda moro com os meus pais. A ideia era dar ao menos uma entrada em um lote e ir construindo. Agora, não tenho mais expectativa de nada”, diz Alvisi, referindo-se à falta de suporte e de posicionamento da instituição financeira ao ser procurada pelas vítimas, conforme relatado pelo técnico em refrigeração. “Na agência, fomos informados de que eles não tinham conhecimento do que estava acontecendo, mas o processo foi todo conduzido lá, por um gerente que tinha 11 anos de casa, com outros funcionários sentados nas mesas ao lado. Fomos aliciados dentro do banco, com câmeras registrando tudo”, pontua Alvisi. “Ele lesou pessoas de bem, gente simples. Não foi nenhum milionário não”, lamenta o denunciante.

Vidas impactadas

Para a empresária Ana Flávia Dutra, a fraude bancária da qual foi vítima significa um propósito de vida congelado. Fundadora do Lar Ilza Couto, no Espírito Santo, ela fez um empréstimo de R$ 250 mil no Santander para reformar o imóvel onde pretende criar uma segunda unidade da instituição de longa permanência e abrigar cerca de 30 idosos. Sem o recurso, no entanto, as obras estão avançando lentamente, e a inauguração, inicialmente prevista para maio deste ano, não tem data para acontecer. “Não é apenas tempo perdido, são vidas interrompidas, pessoas com histórias. Existe uma lista de idosos precisando de acolhimento, e não há local para isso. Muitos estão perdendo a chance de receber um cuidado digno. Temos equipe e local, mas não o recurso, que é nosso. Não estamos pedindo nenhum favor ao banco, apenas justiça”, ressalta Ana Flávia.

A empresária conta que a busca por uma casa de repouso humanizada para o próprio avô foi a inspiração pra criação do Lar Ilza Couto, batizado em homenagem à avó dela. A instituição funciona na casa onde Ana Flávia cresceu e, atualmente, opera com a capacidade máxima, atendendo 30 idosos residentes e diários (que passam o dia no local). A expansão, contudo, parece estar distante. “Não conseguimos fazer mais empréstimos. O valor contratado foi financiado e está sendo descontado. Colocamos carro e lote à venda para tentar não parar totalmente”, diz.

Posicionamentos

O Santander informou que “reportará às autoridades policiais e judiciárias os fatos apurados, colaborando para que a investigação seja concluída o mais rapidamente possível, para dar um posicionamento definitivo às eventuais vítimas e acionar judicialmente todos os que possam ter atuado com má-fé”. 

Já a Polícia Civil informou que o inquérito instaurado para apurar o suposto crime de estelionato cometido pelo gerente da agência bancária do Centro de Betim – um homem de 33 anos – segue em tramitação. “Outras informações poderão ser repassadas após a conclusão das investigações”, finalizou a corporação.

Polícia indiciou 19 membros de organização criminosa

O golpe que vitimou Pollyanna Breder, Felipe Alvisi, Ana Flávia Couto e outras dezenas de clientes da agência do Santander do Centro de Betim, bem como de outras instituições financeiras do estado, motivou a Operação Descrédito, deflagrada pela Polícia Civil em maio para investigar um prejuízo de mais de R$ 20 milhões causado a pessoas físicas e jurídicas em Minas. O inquérito foi concluído e remetido ao Ministério Público. Dezenove pessoas foram indiciadas pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, estelionato qualificado pela fraude eletrônica, falsificação de documento público, uso de documento falso e falsa identidade.

Segundo a polícia, a quadrilha mirava pessoas com bom histórico de crédito. Os dados coletados eram repassados ao líder do grupo, que coordenava a falsificação de documentos e, com a ajuda de estelionatários, realizava a abertura de contas fraudulentas.