O puerpério é, por definição, o período compreendido entre o parto e o retorno do corpo da mulher ao estado pré-gestacional. Na prática, o termo também diz respeito a uma fase solitária da mãe, quando ela não se reconhece no espelho nem nas próprias emoções. Essa vulnerabilidade hormonal e emocional pode resultar em uma busca por recompensa. E, nos dias atuais, ela é facilmente encontrada na rolagem de uma tela.
A segunda matéria da série Mães Corujas aborda o consumismo materno, sobretudo na madrugada, quando o smartphone pode se tornar uma armadilha travestida de rede de apoio para quem ainda está se redescobrindo em uma nova versão. “Foi assim que eu comprei um celular muito caro. Mas eu estava precisando e estou me convencendo de que mereço”, afirma a psicóloga Cíntia Santos, de 39 anos, mãe do Murilo, de 6 meses.
Ela conta que estava amamentando o filho quando se deparou com o anúncio de um smartphone mais moderno e não resistiu. “Comprar é algo muito recompensador, nos dá um prazer breve. Hoje, minha maior armadilha é o e-commerce. Desde a pandemia, criei o hábito de não comprar em lojas físicas. Agora, com os hormônios em revolução, acabo comprando mais ainda online”, revela.
A psicóloga ressalta que o papel dos algoritmos é justamente gerar o desejo de compras. Quando esse mecanismo encontra o sentimento de insuficiência de uma puérpera, ceder ao impulso torna-se quase inevitável. “Na maior parte das vezes, não é fácil pra mim perceber que estou comprando pra tentar suprir uma falta ou me sentir melhor. Isso fica claro depois e, muitas vezes, vejo que não precisava daquilo. Se eu pensasse mais três segundos antes, provavelmente não compraria”, reflete Cíntia.
A biomédica Laiza Paoli, de 33 anos, também encontrou nas compras online uma forma de resgatar a própria identidade depois de se tornar mãe das gêmeas Olívia e Cecília, de 6 meses. Ela conta que sempre foi ativa e praticante de esportes, e tinha alcançado uma forma física bem próxima da que almejava. No entanto, com a gravidez, tudo mudou. “De repente, eu estava com uma barriga gigante. Durante a gestação, eu entendia que era um processo, mas, depois que elas nasceram, eu me assustei ao olhar para um corpo tão diferente”, confessa a biomédica.
Embora não seja uma compradora compulsiva, ela admite que, vez ou outra, acaba se rendendo a “algumas coisinhas”. “Compro muito mais para as meninas, mas a gente também não pode abrir mão de tudo. A mãe ainda está ali”, ressalta Laiza. “Vou vendo umas coisas e comprando na madrugada porque durante o dia não dá tempo. Vou pesquisando, e, depois, vão chegando as comprinhas ao longo da semana”, diverte-se.
Mãe da Alice, de 5 meses, a técnica de rede elétrica Cristiane Eller, de 36 anos, desenvolveu uma estratégia para evitar cair na tentação, embora admita que cosméticos e acessórios já escaparam do controle. “Apaguei os cartões que ficavam salvos nos sites de compras. Isso me força a ir buscá-los na bolsa e, como estou ocupada, me deixa um tempo pra pensar melhor”, explica Cristiane.
Ela reconhece que os algoritmos são fortes e lembra também os influenciadores que tentam vender uma ideia de vida perfeita. “Uma coisa importante que aprendi é que não tem como voltar o corpo nem a vida de antes. Tudo é novo, e não devo me culpar. Assim, não preciso de recompensas também”, sublinha Cristiane.
A psicóloga e sexóloga Cida Lopes pondera que nem todas as mulheres conseguem ter esse senso crítico. Ela ressalta que, na madrugada, as mães estão mais cansadas, vulneráveis e com a capacidade de autocontrole reduzida. Dessa forma, o celular é transformado em anestésico, companhia e distração. “Então, a questão não são as compras, mas a função que elas estão tendo: são pra aliviar a solidão, compensar a exaustão e a frustração, alimentar a vaidade? Quando comprar deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser uma resposta automática, compulsiva, temos que ter um olhar de cuidado porque isso realmente traz prejuízos financeiros e de relacionamento”, conclui Cida.