ECONOMIA

Polo Automotivo de Betim chega aos 50 anos com investimentos de R$ 30 bilhões

Fábrica da Fiat, hoje Stellantis, passou por ciclos de modernização e expansão da capacidade; produção cresceu 11,7% no último ano e chegou a 525 mil veículos

Por Marco Aurélio Neves

Publicado em 09 de julho de 2026 | 10:41

 
 
Vista aérea do Polo Automotivo da Stellantis, em Betim (MG) Vista aérea do Polo Automotivo da Stellantis, em Betim (MG) Foto: Stellantis/Divulgação

Nesta quinta-feira (9/7), um dos principais marcos industriais da economia de Minas Gerais completa meio século de história: o Polo Automotivo de Betim, da Stellantis, na Grande BH. Inaugurado pela Fiat em 9 de julho de 1976, ao longo de 50 anos a unidade já produziu mais de 18 milhões de veículos. Somente neste século, a unidade terá recebido um investimento acumulado de quase R$ 30 bilhões.

O montante é um dos maiores investimentos já aplicados por uma empresa em território mineiro na história e soma-se aos US$ 210 milhões alocados para a construção da fábrica, nos anos 1970, em um aporte conjunto da fabricante italiana e do governo estadual na época.

O presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, afirma que ao longo de cinco décadas, a montadora acompanhou as transformações do país e contribuiu para o desenvolvimento nacional com inovação, pioneirismo e paixão. No aniversário da fábrica, ele destaca que o grupo celebra muito mais do que a trajetória de uma marca.

“É um orgulho olhar para essa jornada e ver como o Brasil se tornou o berço de uma história que produziu mais de 19 milhões de veículos em Betim e Goiana (PE), lançou produtos que marcaram gerações e transformou a Fiat na marca de automóveis mais querida do país. Tudo isso porque a Fiat é fã do Brasil e fã dos brasileiros”, disse Zola.

O Polo Automotivo de Betim foi responsável por cerca de 62% da produção nacional da Stellantis em 2025, com a fabricação de 525 mil unidades, um crescimento de 11,7% em relação ao ano anterior. Ao todo, a montadora produziu cerca de 846 mil veículos no Brasil no ano passado, uma alta de aproximadamente 12% em comparação com 2024.

O número é bastante superior à capacidade produtiva de quando a fábrica foi inaugurada. À época, a Fiat planejou a construção do polo para uma produção de 200 mil veículos por ano, uma escala ambiciosa para um projeto industrial fora da rota do eixo Rio-São Paulo, que concentrava a indústria automobilística nacional nos anos 1970.

Atualmente, a fábrica mineira produz modelos de grande relevância do grupo automotivo no mercado nacional e na América Latina, com veículos líderes de mercado em seus segmentos, como a Fiat Strada e o Fiat Argo, além dos Fiat Mobi, Pulse, Fastback e Fiorino e do Peugeot Partner Rapid.

Até por isso, em 2024, a Stellantis anunciou aportes de R$ 14 bilhões para o Polo de Betim de 2025 a 2030. Este será o maior ciclo de investimentos da história da fábrica mineira. O montante representa parte significativa do plano da montadora para toda a América do Sul, que prevê aportes de R$ 32 bilhões para a região durante o período, sendo R$ 30 bilhões somente no Brasil.

Antes do atual ciclo de aportes, a unidade fabril já havia recebido outros ciclos de investimentos vultosos. O primeiro foi iniciado em 2011, com a alocação de R$ 7 bilhões para a modernização da unidade. O segundo, iniciado em 2019, foi ainda maior: foram R$ 8,5 bilhões aplicados para expansão da capacidade produtiva e o desenvolvimento de motores turbo e de novos produtos.

Ou seja, ao todo, desde a sua criação, entre aportes já aplicados e previstos, o Polo Automotivo de Betim terá recebido investimentos superiores a R$ 30 bilhões até 2030.

Uma marca financeira alcançada justamente por uma das maiores empregadoras do estado. Atualmente, a Stellantis emprega diretamente cerca de 19 mil pessoas, o que representa mais da metade da força de trabalho do grupo automotivo em todo o continente sul-americano.

Investimentos da montadora no país irão ultrapassar R$ 60 bilhões

O polo industrial possibilitou que a cidade de Betim recebesse investimentos públicos em infraestrutura e logística, em corredores de transporte como as BR-381 e BR-262. A operação e, posteriormente, o seu crescimento, também atraiu fornecedores e prestadores de serviços.

São 120 fornecedores diretos e centenas de indiretos instalados no entorno da unidade mineira, o que forma uma cadeia de indústrias ampla e diversificada na região e faz do estado o segundo maior polo automotivo do país.

O Diretor Regional em Minas Gerais do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), Fabio Sacioto, aponta que, nos 50 anos de operação, o Polo de Betim se tornou um motor de desenvolvimento para a indústria brasileira de autopeças.

Hoje, na iminência da maior transformação tecnológica do setor desde sua mecanização, ressalta Sacioto, a unidade Betim permanece como referência, com estruturas e uma cultura de inovação que servem como alicerce para a transição para a eletrificação, conectividade e autonomia, sendo um catalisador de novas oportunidades para a indústria nacional.

Em cinco décadas, o diretor do Sindipeças explica que a fábrica mineira estabeleceu padrões cada vez mais altos de qualidade, segurança e eficiência. “Esses padrões elevaram a competitividade da indústria de autopeças brasileira, transformando fornecedores locais em parceiros capazes de atender clientes globais e contribuir para a reputação internacional do Brasil como centro de excelência automotiva”, pontua Sacioto.

Além de Minas Gerais, a montadora também tem se destacado nos investimentos em todo o território nacional. O Polo Automotivo de Goiana, em Pernambuco, inaugurado em 2015, ainda sob o guarda-chuva da então Fiat Chrysler Automobiles (FCA), antes da fusão com o Grupo PSA e posterior criação da Stellantis, já recebeu investimentos de R$ 18 bilhões em dez anos de história.

Se a fábrica mineira é a maior planta industrial de automóveis do país, a unidade pernambucana é a maior de toda a região Nordeste. Para o ciclo 2025-2030, a Stellantis projeta investimentos de R$ 13 bilhões no polo de Goiana, voltado ao lançamento de novos produtos, expansão da cadeia de fornecedores, além do desenvolvimento e localização de novas tecnologias para acelerar a descarbonização da mobilidade.

Somados aos recursos já aplicados, o montante resultará em um investimento acumulado de R$ 31 bilhões no polo automotivo pernambucano. Assim, entre as terras de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, ao longo de 50 anos, em diferentes épocas e estruturas, como Fiat, FCA e Stellantis, os investimentos do grupo automotivo no país irão superar a marca dos R$ 60 bilhões.

O presidente da Câmara da Indústria Automotiva e Mobilidade da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e Vice-presidente Sênior de Jurídico e Relações Institucionais da Stellantis para a América do Sul, Márcio de Lima Leite, destaca que muitos executivos brasileiros ou que trabalharam no Brasil assumem posições estratégicas na gestão global.

Este fato, destaca, comprova a qualidade dos profissionais da operação brasileira e a importância estratégica que o país assumiu no conjunto das operações globais da Stellantis.

“O mais gratificante na comemoração dos 50 anos é que essa data, além da celebração de um legado, é sobretudo o início de um novo ciclo de investimento, crescimento, inovação e desenvolvimento de novos modelos, sempre com foco na evolução das pessoas e da mobilidade”, declara Márcio de Lima Leite.

Fábrica da Fiat detém importantes marcos da indústria automobilística nacional

Além de representar um movimento de descentralização da produção automotiva no Brasil, a planta da Fiat em Betim também se materializou como um importante polo de desenvolvimento do mercado e da indústria automobilística nacional.

O lançamento do Fiat 147, em 1976, marcou o início da caminhada da marca no país, mas foi nos três anos seguintes que a montadora promoveu uma disrupção no mercado brasileiro. A mesma base do hatch compacto deu origem à 147 Pick-up, em 1978, a primeira picape derivada de um carro de passeio.

Em 1979 veio o Fiat 147 a etanol, o primeiro carro movido pelo biocombustível produzido em série no mundo, um marco da engenharia automotiva brasileira e internacional.

A marca iniciou pesquisas e desenvolvimento do novo motor já em 1976, em meio às pressões da crise do petróleo de 1973 e ao lançamento do programa ProÁlcool pelo governo federal em 1975, que buscava uma agenda nacional de substituição parcial da gasolina e valorização da cana-de-açúcar como alternativa energética.

Em 1984, a Fiat deu um passo adiante com o Uno. Desenhado pelo renomado designer italiano Giorgetto Giugiaro, o modelo levou ao mercado brasileiro um carro compacto, mas com cabine ampla, boa visibilidade e uso inteligente do espaço.

A mudança é considerada decisiva para a marca no mercado brasileiro. A plataforma do Uno possibilitou a evolução de uma família derivada do hatch, como o Prêmio, em 1985, o primeiro sedã da Fiat no país; a perua Elba, em 1986; e a picape e o furgão Fiorino, em 1988.

O Prêmio foi o primeiro carro brasileiro, junto com o Uno, a oferecer computador de bordo, que exibe dados como consumo, velocidade média e autonomia, em um momento em que esse tipo de interface ainda parecia distante da realidade dos carros nacionais.

No seu lançamento, o Uno trouxe motores a gasolina de 1.050 e 1.300 cm³, em versões como S, CS e a esportiva SX. Em 1990, a Fiat lançou o Uno Mille, que coincidiu com a política de incentivo fiscal para carros de até 1.000 cm³, criada no início dos anos 1990 pelo governo federal, que reduziu a tributação dessa faixa e abriu espaço para uma nova categoria de automóveis mais baratos.

Em 1994, a Fiat lançou o Uno Turbo, o primeiro carro de passeio nacional produzido em série com turbocompressor. Com 0 a 100 km/h em 9,2 segundos e velocidade máxima de 195 km/h, o novo Uno entrava em uma seara que poucos carros compactos brasileiros tinham entrado.

Assim, o Fiat Uno, sobretudo o Mille, abriu a era do carro popular no país e contribuiu fortemente para consolidar a posição da Fiat entre as maiores fabricantes de automóveis da indústria nacional. Em 2004, o Uno bateu 2 milhões de unidades vendidas no Brasil.

Em 2003, o Polo Automotivo de Betim participou de outro passo tecnológico importante na história da montadora. O programa ProÁlcool entrou em declínio nos anos 1990, e o mercado de etanol vivia uma fase de incertezas. Já existiam automóveis movidos a etanol nos portfólios de todas as fabricantes do país, mas os emplacamentos eram tímidos.

Acompanhada das outras montadoras do Brasil, a Fiat lançou o Palio 1.3 equipado com motor flex, produzido na sua planta industrial de Minas Gerais. O modelo ajudou a vencer a desconfiança dos consumidores com o etanol e contribuiu para a imensa popularização do motor flex no mercado brasileiro, que se tornou uma unanimidade no país.

“Na raiz desse sucesso está uma profunda conexão com o consumidor brasileiro, que nasceu da decisão de tornar-se a mais brasileira das marcas automotivas. A empresa investiu para nacionalizar o design, a engenharia e todas as etapas necessárias ao projeto, desenvolvimento, testes e produção de um novo modelo a partir de uma ideia”, destaca Márcio de Lima Leite.

Agora, a Stellantis parte para uma nova jornada de inovação, em busca da descarbonização do setor. O grupo trabalha com o desenvolvimento de carros híbridos flex. A marca lançou versões com a tecnologia Bio-Hybrid, um sistema híbrido leve de 12V e 48V, que auxilia o motor a combustão para melhorar a eficiência de combustível.

A Fiat se tornou a primeira marca a lançar um produto híbrido-flex fabricado no Brasil. Outros modelos no mercado com um conjunto híbrido-flex são importados. O sistema de regeneração da Stellantis converte até 25% da energia desperdiçada em um carro convencional em eletricidade, armazenando-a em duas baterias para uso posterior.