
A recusa de muitos profissionais em preencher vagas de emprego, atualmente, é explicada por uma mudança no perfil do trabalhador contemporâneo, que valoriza cada vez mais a gerência do seu tempo e a qualidade de vida, conforme avaliado por uma especialista. Segundo a psicóloga e consultora organizacional Graziela Alves, fundadora da Fidhem Consultoria, o fenômeno vem sendo chamado de “uberização”, em referência aos motoristas de transporte por aplicativo, que encontram na função uma oportunidade de fazer dinheiro ditando o próprio ritmo de trabalho, sem vínculos nem subordinações formais.
Graziela ressalta que o tempo, hoje, é uma moeda extremamente valorizada, e trabalhos que atravessam a vida social e atrapalham o convívio familiar são preteridos. Nesse grupo, de acordo com a consultora, entram, por exemplo, a indústria, setores de serviços como hotelaria, a área da saúde e o comércio.
De acordo com Graziela, o conceito de “bom trabalho” também passou por uma reformulação. Estabilidade e carreira longeva saíram de cena para dar lugar à possibilidade de se ter lazer e interações sociais, por exemplo. “Entre dinheiro e tempo, muitas vezes, os novos profissionais vão deixar dinheiro na mesa para ter mais tempo”, sublinha.
Comerciantes de vários segmentos em Betim têm se queixado de dificuldade de encontrar funcionários. Quais são as possíveis explicações para essa escassez de mão de obra?
O que ocorreu nos últimos anos foi um fenômeno que a gente chama de ‘uberização’, no qual as pessoas viram a possibilidade de serem empreendedoras. Esse formato de trabalho está concorrendo com o emprego formal. Em nome da qualidade de vida e até de uma ideia de fazer dinheiro – o que na CLT não é possível porque o salário é fixo, na maioria dos casos –, muita gente, mesmo com toda a vulnerabilidade, opta por esse formato de renda. As pessoas estão decidindo deixar um emprego para pensar em geração de renda por meios alternativos.
Houve uma mudança no perfil dos trabalhadores, considerando que novas gerações estão atingindo a idade de ingressar no mercado de trabalho?
Eu não vejo como uma questão relacionada à idade, mas à geração, sim. Muitas vezes, um jovem do ensino médio, com 15 ou 16 anos, não se inspira em uma carreira executiva, mas naqueles que estão nas redes sociais dizendo: ‘fiz tantos dígitos em poucos dias’. Aquele executivo que crescia dentro de uma mesma empresa e fazia uma carreira de 10, 20, 30 anos, já não é inspiração para as gerações atuais.
Do ponto de vista do trabalhador, o que falta no mercado para eles se interessarem e permanecerem nos postos de trabalho?
Os jovens e adultos que buscam o mercado formal vêm sendo mais seletivos sobre a ideia de um bom trabalho. Por muito tempo, ela esteve apoiada em estabilidade e remuneração competitiva. Hoje, os profissionais estão menos dispostos a sentir o peso de uma liderança despreparada; esperam uma relação de mais respeito, harmonia e equilíbrio, independentemente do organograma; e abusos de poder já não são mais tolerados, bem como a disparidade de participação. Mesmo que não ocupem posições de liderança, os jovens querem ter lugar de fala. Também não estão dispostos a trabalhar em ambientes em que a saúde mental estará em jogo, lugares com conflitos não administrados e relação abusiva de poder. Cuidar da saúde, ter condições de fazer atividades físicas, tempo livre para hobbies, lazer e interações sociais também pesa.
Para os profissionais que buscam qualificação, em Betim, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (Seadec) oferta cursos e formações em parceria com instituições como Senai (indústria), Senac (comércio e serviços) e Sebrae (gestão e desenvolvimento de negócio).
Segundo a pasta, o município também promove o Café com a Indústria para fortalecer o diálogo entre o Poder Público e o setor industrial de Betim. “O projeto busca identificar as demandas das empresas, especialmente relacionadas à mão de obra, para que, junto aos parceiros institucionais, sejam oferecidas opções de formação e soluções que contribuam para a ocupação dos postos de trabalho”, ressalta a Seadec.
Ainda de acordo com a secretaria, além das ações de qualificação, a Superintendência de Trabalho, Emprego e Renda (Seter) atua na aproximação entre trabalhadores e empresas, com a divulgação, duas vezes por semana (terças e quintas), de oportunidades de emprego disponíveis no município.